Richie Tenenbaum (Luke Wilson) em The royal Tenenbaums, 2001
09 Dezembro 2009
People are strange (L'Atalante)
“People are strange, when you're a stranger
Faces look ugly when you're alone
Women seem wicked, when you're unwanted
Streets are uneven, when you're down”
pelos Doors
Se outras razões não houvessem para se gostar de L’Atalante, o derradeiro filme de Jean Vigo antes de cedo de mais se finar, bastaria conhecermos a influência que foi para a Nouvelle Vague e para muitos cineastas que continua a inspirar, para sentir-mos a necessidade de lhe prestar tributo. Mas gostar de L’Atalante é um reflexo, apoiado na belíssima fotografia e conduzido por uma banda sonora cirúrgica dispensa enquadramentos e conhecimentos históricos, gosta-se porque ao vê-lo não resta outra hipótese. Surgido durante a implementação do sonoro assiste-se ao encanto de um filme que parece ter sido feito antes do próprio cinema. O tom contemplativo envolve as personagens que não sentem a necessidade de serem heróicas nem miseráveis, seguras da sua identidade debatem-se apenas com o próprio temperamento. Jean (Jean Dasté) e Juliette (Dita Parlo), acabados de casar, ele comedido e entregue às obrigações, ela à espera que o casamento seja a sua libertação, ansiosa por conhecer Paris. Pelo meio a personagem de Michel Simon, a emanar algum do cinema tragicómico mudo de Chaplin e Keaton, como elemento provocador e conciliador. A premissa simples explora a forma como cada um impõe as suas diferenças aceitando igual imposição de volta. A redenção é feita de romantismo, humanidade e cândido erotismo. A cena em Jean procura Juliette no fundo do rio é o paradigma de tudo isto.
Faces look ugly when you're alone
Women seem wicked, when you're unwanted
Streets are uneven, when you're down”
pelos Doors
Se outras razões não houvessem para se gostar de L’Atalante, o derradeiro filme de Jean Vigo antes de cedo de mais se finar, bastaria conhecermos a influência que foi para a Nouvelle Vague e para muitos cineastas que continua a inspirar, para sentir-mos a necessidade de lhe prestar tributo. Mas gostar de L’Atalante é um reflexo, apoiado na belíssima fotografia e conduzido por uma banda sonora cirúrgica dispensa enquadramentos e conhecimentos históricos, gosta-se porque ao vê-lo não resta outra hipótese. Surgido durante a implementação do sonoro assiste-se ao encanto de um filme que parece ter sido feito antes do próprio cinema. O tom contemplativo envolve as personagens que não sentem a necessidade de serem heróicas nem miseráveis, seguras da sua identidade debatem-se apenas com o próprio temperamento. Jean (Jean Dasté) e Juliette (Dita Parlo), acabados de casar, ele comedido e entregue às obrigações, ela à espera que o casamento seja a sua libertação, ansiosa por conhecer Paris. Pelo meio a personagem de Michel Simon, a emanar algum do cinema tragicómico mudo de Chaplin e Keaton, como elemento provocador e conciliador. A premissa simples explora a forma como cada um impõe as suas diferenças aceitando igual imposição de volta. A redenção é feita de romantismo, humanidade e cândido erotismo. A cena em Jean procura Juliette no fundo do rio é o paradigma de tudo isto.
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João Henrique Banha
Contributo da década que finda para a história da música: Beirut
(primeiro de uma série sem sucessão assegurada)
por
João Henrique Banha
05 Dezembro 2009
JP Simões
Em Boato, o seu álbum ao vivo, JP Simões canta “Eu um dia hei-de ter poder!” da sua Ópera do Falhado. Chama-lhe a canção da impotência e da presunção e saloia.
por
João Henrique Banha
O logro
O anterior governo, já liderado por José Sócrates, arrancou em força, cheio de vontade reformadora. Apoiado na legitimidade da maioria absoluta afrontou corporações e valores instituídos sabendo-se seguro, pelo menos durante quatro anos dificilmente alguém os faria cair. Olhando para o país que definha compreensivelmente se entenderia a necessidade de medidas renovadoras, apenas possíveis com alguns anos de estabilidade governativa e coragem de alterar paradigmas, mas essas convicções e vontades não valem por si só, sem a necessidade de serem oportunas e acertadas. Agora é já indiscutível que nunca foram essas as motivações do anterior executivo. Apeado da maioria o primeiro-ministro vai recuando em toda a anterior linha orientadora, desdizendo-se nos temas em que antes se mostrava intransigente. A governação prossegue com navegação à vista. A sua anterior firmeza nunca foi a das convicções mas a da arrogância, as violentas teimas nunca foram em defesa de um rumo para dar ao país mas as da prepotência de quem detém o poder. As cedências que agora vai fazendo, sem mesmo assim as admitir refugiado em jogos de semântica, são a tentativa de redenção, de aparentar humildade. Junta-lhe a vitimização. O novo mandato adivinha-se curto e a esperança é a reeleição. Não me admira que a tenha, já por duas vezes os portugueses engoliram o logro.
por
João Henrique Banha
04 Dezembro 2009
Folie a deux,
onde o escrevedor mais uma vez se dedica à efabulação com resultados questionáveis
Relata o i a história de um casal recordista, prestes a atingir os quinze anos em protesto à porta da procuradoria-geral da república. Faço-me narrador, impotente para controlar os seus passos e sigo-os surpreendido. Ao café e às torradas, lavagens cumpridas, roupas vestidas, sucede-se a perseverante luta pela justiça contra quem os tramou, matando-os aos olhos da lei, primeiro a ele, depois a ela, e ainda a descendência comum. Cúmulo da velhacaria, foi fratricida a vilanagem, os próprios irmãos lhe terminaram as ambições servindo-se da burocracia que controlavam para o afastar de uma herança valiosa que por direito lhe pertencia. Ainda se compadeceram e já que lhe encurtavam a vida, substituíram a existência nascida em Nelas pela de um viajante, nascido em Benguela, morto na Índia. Espera-se que não lhes sirva isto de atenuante.
O protesto que parecerá irreal, ainda que ocorra ordeiramente, com horário de expediente estabelecido, feriados e demais folgas controlados, cumpridor daquilo a que se propõe, fará duvidar os pouco crentes e acicatará os ânimos mais susceptíveis que, incomodados, lhe tentarão pôr termo. A esses alguém devia avisar, alertando-os para a inglória luta para que se propõem, ninguém se deve pôr entre um homem e os seus moinhos de vento. Se para aqui me fiz narrador foi por admirar a vontade e firmeza do homem que sem elas descansaria no cemitério de Aljustrel, que adoptou a sua loucura para a batalha diária. Mais ainda a abnegação de quem decide compartilhar o seu delírio. Dificilmente haverá maior prova de devoção do que a partilha da demência. Flora e Florindo, até os seus nomes me dão razão e provam a história que é de bem-querer, a sua contenda terá de continuar. Qualquer dia vou até lá e junto-me a eles.
Relata o i a história de um casal recordista, prestes a atingir os quinze anos em protesto à porta da procuradoria-geral da república. Faço-me narrador, impotente para controlar os seus passos e sigo-os surpreendido. Ao café e às torradas, lavagens cumpridas, roupas vestidas, sucede-se a perseverante luta pela justiça contra quem os tramou, matando-os aos olhos da lei, primeiro a ele, depois a ela, e ainda a descendência comum. Cúmulo da velhacaria, foi fratricida a vilanagem, os próprios irmãos lhe terminaram as ambições servindo-se da burocracia que controlavam para o afastar de uma herança valiosa que por direito lhe pertencia. Ainda se compadeceram e já que lhe encurtavam a vida, substituíram a existência nascida em Nelas pela de um viajante, nascido em Benguela, morto na Índia. Espera-se que não lhes sirva isto de atenuante.
O protesto que parecerá irreal, ainda que ocorra ordeiramente, com horário de expediente estabelecido, feriados e demais folgas controlados, cumpridor daquilo a que se propõe, fará duvidar os pouco crentes e acicatará os ânimos mais susceptíveis que, incomodados, lhe tentarão pôr termo. A esses alguém devia avisar, alertando-os para a inglória luta para que se propõem, ninguém se deve pôr entre um homem e os seus moinhos de vento. Se para aqui me fiz narrador foi por admirar a vontade e firmeza do homem que sem elas descansaria no cemitério de Aljustrel, que adoptou a sua loucura para a batalha diária. Mais ainda a abnegação de quem decide compartilhar o seu delírio. Dificilmente haverá maior prova de devoção do que a partilha da demência. Flora e Florindo, até os seus nomes me dão razão e provam a história que é de bem-querer, a sua contenda terá de continuar. Qualquer dia vou até lá e junto-me a eles.
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João Henrique Banha
23 Novembro 2009
«Quando se gravam as vozes dos actores, seja num filme do Spielberg ou de qualquer outro, é sempre mono. Os sons ambiente, alguns ruídos e a maioria dos efeitos sonoros que se juntam na mistura final é que são gravados em estéreo. Só que, hoje em dia, o delírio é total: cada som é literalmente desossado, esventrado e depois disparado pelo máximo de canais possíveis. O som já não vem só de trás do ecrã, vem da esquerda e da direita, do fundo da sala, do tecto e até do solo. E já podemos ‘vivê-lo’ nas nossas casas, com o home cinema. A falta de ideias e de convicção no próprio filme, para não falar na falta de confiança no espectador, fazem com que se tente ‘envolvê-lo’ e conquistá-lo por todos os meios, pistas e surrounds disponíveis. O ridículo é tal que, agora, para se reconhecer o bater de uma porta ou o assobio do vento nas árvores, temos de voltar a ouvi-los num filme de Renoir ou de Ford dos anos 40… Em “Ne change rien”, tentámos repor o som no espaço do ecrã. Neste sentido, quase se pode dizer que é um filme feito tanto do ponto de vista da câmara como do microfone. Na mistura final, recentrámos o som, tentando, ao mesmo tempo, redescobrir a energia, o equilíbrio e a concentração de quatro músicos que tocam juntos. Vamos a uma comparação fácil: ainda me lembro de uns indigentes a planar aquelas bodegas dos Génesis que, como por ordem divina, só se podiam ‘apreciar’ em grande aparelhagens; e, depois, não foi um alívio poder pôr uma cassete dos Buzzcocks num deck de trazer por casa? Quanto ao mono, e para sossegar os progressistas, vale a pena lembrar o susto de John Lennon, há 40 anos, quando o produtor George Martin misturou em estéreo o “Sgt. Pepper’s…”: “Que raio de coisa é esta?”, perguntou Lennon. “Isto não somos nós! Somos quatro e tocamos juntos, não tocamos separados!” Foi Lennon que disse a palavra: “separados”. Há umas semanas, McCartney confirmou: Se querem ouvir Beatles a sério, ouçam as gravações mono.”»
Pedro Costa em entrevista ao Expresso, acerca de "Ne change rien"
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João Henrique Banha
22 Novembro 2009
This is the beard/I'm always growin' #3
Um deus barbudo, raptado aqui, onde estava rodeado de pessoas tão estranhas como bonitas, num acto de vilanagem.(#2)
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João Henrique Banha
21 Novembro 2009
Cama e caldos de galinha
Morrem em Portugal cerca de trezentos fetos por ano. Ainda assim os três óbitos fetais ocorridos na última semana chegaram para a comunicação social esfregar as mãos de contente e conter a custo alguma baba a escorrer pelo canto da boca, havia já matéria para cabeçalhos de página e abertura de telejornal.
Habituámos que estamos a histerias em volta de coisa pouca e arrependidos do exagero apenas moderado provocado pela chegada da gripe – apenas chegou para o natural medo pandémico da pandemia e para lamentar a falta de vacina – tratámos de emendar a mão. A vacina, a tão desejada, não é segura. E de boca em boca começa a haver quem a recuse, até aqueles que por não estarem em grupos de risco nunca teriam direito a ela, porque não confiam em curas que aparecem suspeitamente rápido, porque Olha o que aconteceu àquela mãe, coitada perdeu o bebé, porque Se apareceu na televisão. Sorriem os crentes em teorias da conspiração enquanto fazem mira ao governo, à direcção geral de saúde, à organização mundial de saúde, ou a quem quer que tenha concebido o plano de extinguir a raça humana, começando por aqueles que ainda nem sequer nasceram e, quem sabe, originando a própria gripe.
De um momento para o outro parecem esquecer que a vacinação é uma das maiores conquistas de sempre da Humanidade e desprezar o trabalho dos cientistas que dedicam uma vida inteira ao estudo e à investigação para estarem preparados para responder a casos como este e são já responsáveis pelo controlo de um sem número de doenças que desde sempre nos têm atentado.
Que recusem a vacina. Recomendo-lhes alho e cebola em abundância como prevenção. Três pais-nosso e três avé-marias antes de dormir. Se ainda assim, e parece-me impossível, a gripe insistir, cama e caldos de galinha.
Habituámos que estamos a histerias em volta de coisa pouca e arrependidos do exagero apenas moderado provocado pela chegada da gripe – apenas chegou para o natural medo pandémico da pandemia e para lamentar a falta de vacina – tratámos de emendar a mão. A vacina, a tão desejada, não é segura. E de boca em boca começa a haver quem a recuse, até aqueles que por não estarem em grupos de risco nunca teriam direito a ela, porque não confiam em curas que aparecem suspeitamente rápido, porque Olha o que aconteceu àquela mãe, coitada perdeu o bebé, porque Se apareceu na televisão. Sorriem os crentes em teorias da conspiração enquanto fazem mira ao governo, à direcção geral de saúde, à organização mundial de saúde, ou a quem quer que tenha concebido o plano de extinguir a raça humana, começando por aqueles que ainda nem sequer nasceram e, quem sabe, originando a própria gripe.
De um momento para o outro parecem esquecer que a vacinação é uma das maiores conquistas de sempre da Humanidade e desprezar o trabalho dos cientistas que dedicam uma vida inteira ao estudo e à investigação para estarem preparados para responder a casos como este e são já responsáveis pelo controlo de um sem número de doenças que desde sempre nos têm atentado.
Que recusem a vacina. Recomendo-lhes alho e cebola em abundância como prevenção. Três pais-nosso e três avé-marias antes de dormir. Se ainda assim, e parece-me impossível, a gripe insistir, cama e caldos de galinha.
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João Henrique Banha
16 Novembro 2009
Navegação (II)
A língua portuguesa complica-me a vida. É pouco dada a arrebatamentos, as nossas palavras preferem, excepção feita à saudade, guardar-se para prosas mais telúricas e familiares, crassas de existencialismo explorando as vísceras. Pouco se dão sentimentalismos ocos, elucubrações bacocas e exibicionismos. É por isso que são tão magníficos os nossos poetas quando, como Pessoa, lhes contrariam a vontade falando de amor, da essência e do desassossego ou, como Herberto Helder, as pegam de caras, arrumando-as com precisão de relojoeiro, grandiloquente, cru, brutal.
Enquanto para aqui ando sem saber o que lhes fazer, não as trocava por nenhumas outras.
Enquanto para aqui ando sem saber o que lhes fazer, não as trocava por nenhumas outras.
por
João Henrique Banha
15 Novembro 2009
13 Novembro 2009
Navegação
Foi a última vez que neste blogue se utilizou a palavra anúncio ao invés de reclame. Fotografia será retrato, nós ser(á)emos a gente. E assim sucessivamente.
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João Henrique Banha
Chovem pianos em São Bento,
onde o escrevedor se ressente do visionamento excessivo de desenhos animados na infância e de anúncios a máquinas de café onde John Malkovich é Deus nosso senhor
Há-de, em tempos, ter existido um morador de rés-do-chão que em dia de mudanças, à chegada ou à partida, informação já perdida por irrelevância para a história, de um seu vizinho dos andares de cima, pôs, incauto, um pé fora da porta sem os preparos de, como se ensina às crianças para transitar de um a outro passeio, olhar para um lado e outro do território a atravessar. A verdade é que mesmo com as devidas precauções avisadamente tomadas, dificilmente teria alguém olhado também para cima, salvando assim a própria vida com, tão somente, um passo atrás.
Falamos, é evidente, de alguém relevante para a época, ou não teria corrido a história como correu, chegando famosa aos nossos dias. Velhos, bêbados e desbocados, vagabundos rotos, palavrosos e metediços também chegam à celebridade mas destes espera-se que vivam em casebres pouco limpos e não em prédios onde iluminados músicos, génios das teclas pretas de ébano e brancas de marfim, lhe sirvam de vizinhança. Pormenor de importância nula, bem vistas as coisas, porque em chegando a hora de tão azarado remate, pouco importará se o atingido tem um hálito fresco ou bafiento de bagaço. Lá nisso é a justiça cega, não há juiz tão imparcial como um piano em queda.
Uma vez aqui chegados já a poucos restará a dúvida sobre o que aconteceu naquele dia ao nosso morador do rés-do-chão: foi o primeiro homem que se finou vitimado por um piano em queda. Mas todos se questionarão sobre que relevância terá tudo isto e aonde pretende chegar o escrevedor. A resposta é nenhuma e a lado nenhum, é a paga que aqui se dá a quem perde tempo a ler este blogue. Ainda assim o escrevedor aproveita o compadecimento para com o mártir de tão trágico destino e estende-o a José Sócrates, que lá em São Bento assiste, estóico e sereno, à queda de pianos que contra ele atentam. Caso licenciatura, caso Freeport, as casas da Covilhã, …, o amigo professor da UI, o amigo Vara e as escutas reveladoras do caso face oculta a desocultar mais alguns cadilhos. Valha-nos que temos um primeiro-ministro ajuizado, que olha para todos os lados antes de atravessar a rua. Tem olhos por todo o lado, ligações e controlos que o protegem dos pianos e o mantém no lugar. Ainda bem que continua em boas mãos o nosso estado pesado, tentacular e controlador. Dêmos graças por não vivermos num estado liberal.
Há-de, em tempos, ter existido um morador de rés-do-chão que em dia de mudanças, à chegada ou à partida, informação já perdida por irrelevância para a história, de um seu vizinho dos andares de cima, pôs, incauto, um pé fora da porta sem os preparos de, como se ensina às crianças para transitar de um a outro passeio, olhar para um lado e outro do território a atravessar. A verdade é que mesmo com as devidas precauções avisadamente tomadas, dificilmente teria alguém olhado também para cima, salvando assim a própria vida com, tão somente, um passo atrás.
Falamos, é evidente, de alguém relevante para a época, ou não teria corrido a história como correu, chegando famosa aos nossos dias. Velhos, bêbados e desbocados, vagabundos rotos, palavrosos e metediços também chegam à celebridade mas destes espera-se que vivam em casebres pouco limpos e não em prédios onde iluminados músicos, génios das teclas pretas de ébano e brancas de marfim, lhe sirvam de vizinhança. Pormenor de importância nula, bem vistas as coisas, porque em chegando a hora de tão azarado remate, pouco importará se o atingido tem um hálito fresco ou bafiento de bagaço. Lá nisso é a justiça cega, não há juiz tão imparcial como um piano em queda.
Uma vez aqui chegados já a poucos restará a dúvida sobre o que aconteceu naquele dia ao nosso morador do rés-do-chão: foi o primeiro homem que se finou vitimado por um piano em queda. Mas todos se questionarão sobre que relevância terá tudo isto e aonde pretende chegar o escrevedor. A resposta é nenhuma e a lado nenhum, é a paga que aqui se dá a quem perde tempo a ler este blogue. Ainda assim o escrevedor aproveita o compadecimento para com o mártir de tão trágico destino e estende-o a José Sócrates, que lá em São Bento assiste, estóico e sereno, à queda de pianos que contra ele atentam. Caso licenciatura, caso Freeport, as casas da Covilhã, …, o amigo professor da UI, o amigo Vara e as escutas reveladoras do caso face oculta a desocultar mais alguns cadilhos. Valha-nos que temos um primeiro-ministro ajuizado, que olha para todos os lados antes de atravessar a rua. Tem olhos por todo o lado, ligações e controlos que o protegem dos pianos e o mantém no lugar. Ainda bem que continua em boas mãos o nosso estado pesado, tentacular e controlador. Dêmos graças por não vivermos num estado liberal.
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João Henrique Banha
11 Novembro 2009
Fábula do cinema português
É preocupação minha a longevidade de algumas pessoas. Entre elas Pedro Costa, Teresa Villaverde, João Canijo, Fernando Lopes, Miguel Gomes, …, Jorge Cramez. Preocupa-me que não durem até aos cem anos de idade. Entretanto estão condenados a realizar obra para a obscuridade, perdida entre o lixo televisivo, artificioso e exibicionista que se vai produzindo em massa para o grande ecrã. O ouro dos tolos.
Se algum dia chegassem à vetusta idade centenária seriam então reconhecidos. Admirados pela persistência, pela vivacidade e lucidez na idade habitualmente dedicada à decadência. Mesmo que continuassem, na realidade, a ser ignorados, a sequer os títulos dos seus filmes serem, na generalidade, conhecidos, seriam atingidos por olhos de burro a olhar um palácio. Mesmo que deles se dissesse serem autores intelectuais de obras aborrecidas, coloquiais e elitistas, seria a reacção da raposa que, por não chegar às uvas, diz, estão verdes.
Seriam então desprezados somente pelos animais.
(Texto reciclado. Recuperado em reacção à urgência da nova ministra da cultura em aparecer ao lado de Manoel de Oliveira. Que se cumpram as palavras do realizador e seja este um bom auspício do que aí vem para o cinema português.
Reservo-me o direito de manter as minhas reservas.)
Se algum dia chegassem à vetusta idade centenária seriam então reconhecidos. Admirados pela persistência, pela vivacidade e lucidez na idade habitualmente dedicada à decadência. Mesmo que continuassem, na realidade, a ser ignorados, a sequer os títulos dos seus filmes serem, na generalidade, conhecidos, seriam atingidos por olhos de burro a olhar um palácio. Mesmo que deles se dissesse serem autores intelectuais de obras aborrecidas, coloquiais e elitistas, seria a reacção da raposa que, por não chegar às uvas, diz, estão verdes.
Seriam então desprezados somente pelos animais.
(Texto reciclado. Recuperado em reacção à urgência da nova ministra da cultura em aparecer ao lado de Manoel de Oliveira. Que se cumpram as palavras do realizador e seja este um bom auspício do que aí vem para o cinema português.
Reservo-me o direito de manter as minhas reservas.)
por
João Henrique Banha
A bizarria comunista e a queda do muro (II)
"Para o resto da Europa - todos os outros 26 -, o comunismo & associados fazem parte da História. Quando a Europa fala do muro, fala de memória. Portugal é o único sítio da Europa onde o comunismo não é história, mas sim política. O muro ainda não caiu aqui."
Henrique Raposo, no Clube das repúblicas mortas.
(Segunda achega ao texto ali em baixo.)
Henrique Raposo, no Clube das repúblicas mortas.
(Segunda achega ao texto ali em baixo.)
por
João Henrique Banha
A bizarria comunista e a queda do muro
"A derrota do socialismo, com o desaparecimento da União Soviética e da comunidade socialista do Leste da Europa, constituiu uma tragédia, não apenas para os povos desses países mas para toda a humanidade: com o capitalismo dominante, o mundo é, hoje, menos democrático, menos livre, menos justo, menos fraterno, menos solidário, menos pacífico."
Do avante, em editorial.
(Primeira achega ao texto ali em baixo. )
Do avante, em editorial.
(Primeira achega ao texto ali em baixo. )
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João Henrique Banha
05 Novembro 2009
Sofia
«estive sentado a duas cadeiras da minha Sofia Coppola. não lhe quis dar um beijo mas tentei chegar-lhe ao ouvido, para sussurrar, para a assustar, para a abraçar, mas não a abracei. lufada de pólen primaveril, coronel senil e um soldado perdido na metade do branco da morte dessa flor, que é a mais preferida, para sussurrar, para a abanar, para a regar, não a abracei. resta agora a brisa nemoral do cercal onde toca a grafonola de cardeais, melros e pardais a cantar no fio da navalha. »
Recém-nascida Sofia, empossada Michael Rizzi acabado de baptizar, e subia ao trono Pacino, empossado Michael, já Don Corleone, finalmente a dominar todas as famílias. Quando Sofia se fina, agora Mary Corleone, à saída da ópera, pelas balas de uma companhia de assassinos enfarpelados de padres, as suas peles de cordeiro, é a estocada final no segundo Don Corleone, que tombará minutos depois num belíssimo derradeiro plano.
Mas nada acaba com o remate da terceira parte da saga de Francis Ford Coppola e Mario Puzo, o que ali acontece é o retomar da normalidade possível, o trajecto que haveria de ter surgido não fosse o ataque a Don Vito, a vingança a ter de ser feita por Michael, a morte de Sonny. Santino teria sido o Don. É-o agora pelas mãos de Don Vincezo.
A regularidade é a procura de O padrinho, parte três. A demanda da redenção. Os dois primeiros filmes são retratos de ambição e poder, no terceiro chega a libertação de Michael que desde o início quis manter-se afastado mas foi sendo puxado para dentro. Tudo o que interessa é o que atravessa os três, a família, os códigos e valores próprios. Uma visão romântica de histórias de tradição e vingança. Ainda que não hajam amores como os primeiros, nunca acompanhado da razão alguém poderá desmerecer o tomo final.
Da actuação de Sofia Coppola diz-se ser um desastre. Ser isto verdade, pura ilusão, e mesmo assim tudo se lhe perdoaria. A Sofia Coppola tudo se perdoa.
por
João Henrique Banha
Possível tipologia social dos movie brats enquanto jovens estudantes
George Lucas era o tipo das tecnologias, sempre possuidor dos gadgets de última geração. Spielberg fazia as coisas bem, agradava a todo o pessoal, era bem-falante e tinha boa figura. Provavelmente ficava com as miúdas. Brian De Palma era o mais soturno, algo tenso era também incisivo, seco, visceral. Partilhava com George Lucas alguns videojogos (sim, videojogos nos ’60), mas só os mais sanguinolentos. Matin Scorsese era o génio descontrolado, falava muito e depressa, era empreendedor e inconstante. Francis Ford Coppola tinha uma aura etérea, era o poeta, o romântico.Tudo bons rapazes.
por
João Henrique Banha
30 Outubro 2009
Toque-se o requiem, se se foi de vez
É quando se lhe enchem os olhos, cobardes que não deixam o chão, que enfim se cumpre, fiel a si mesmo ou cão não fosse. O escrevedor acalma-o com uma mão pousada no crânio canino, a outra sobre o próprio peito, lá dentro inquietação.
-Eu nunca te prometi nada, foram os teus olhos de Blimunda que me leram a vontade.
-Eu nunca te prometi nada, foram os teus olhos de Blimunda que me leram a vontade.
por
João Henrique Banha
Tango do antigamente
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